terça-feira, 5 de dezembro de 2017

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?


"Nos fins de tarde, eu pegava tomate ou limão, tacava sal e ficava ali saboreando minhas invenções culinárias até o sol se pôr. Para enganar a fome enquanto o jantar não saía, comia cenoura crua. Também amava doces, claro. Cheguei a devorar colheradas de açúcar diretamente do pote, num momento de distração dos adultos de plantão - bobinhos.

Até que um dia o salmão virou ômega 3, as cenouras se transformaram em betacaroteno e o açúcar mudou o RG para carboidrato. Comer passou a ser um negócio complicado. Os tomates sumiram do meu prato e, no lugar deles, apareceram licopenos Minhas batatas fritas, que eu saboreava com arroz, feijão, bife e salada, se tornaram criminosas. Vi minha vida passar diante dos meus olhos quando soube que aquelas belezinhas crocantes por fora e macias por dentro tinham um monte de gordura e isso não era legal. Comecei a comê-las escondida de mim mesma e fingindo que não pensava nelas diante de um filé de peito de frango grelhado - aliás, me desculpe, o correto é dizer proteína magra.

Alguém mordeu a maçã do pecado original da alimentação e nos condenou às vitaminas e aos antioxidantes. Só pode ser. Mas eu me libertei e estou aqui para dar meu testemunho."

* Extraído do livro "Prato Sujo - como a indústria manipula os alimentos para viciar você" - Márcia Kedouk

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PARA GIOVANNA HAIG FRANÇA (IN MEMORIAN)



Samba de Pergunta (Astronauta)

Composição: Pingarrilho / Marcos Vasconcelos 



Ela agora mora só no pensamento

Ou então no firmamento

Em tudo que no céu viaja

Pode ser um astronauta 

Ou ainda um passarinho

Ou virou um pé de vento

Pipa de papel de seda 

Ou, quem sabe

Um balãozinho

Pode estar num asteróide

Pode ser a Estrela d'Alva

Que daqui se olha

Pode estar morando em Marte

Nunca mais se soube dela

Desapareceu..


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DEUSA EM NOVEMBRO


Acontece que Cecília apareceu em novembro e desapareceu em novembro. É hora de  Lembrar Cecília, a deusa. A qualificação parece exagerada? Foi a melhor que encontrei, depois de muito meditar sobre Cecília. As outras não servem para caracterizá-la bem. Mulher bela? Sim, foi mulher bela. Grande poeta? Claro, foi grande poeta. Mas foi principalmente.. deusa.

Pousou entre nós por um condescendência especial, guardando distância, serena, às vezes sorridente (ah, o sorriso olímpico de seus olhos verdes), mas quem disse que o sorrir dos deuses é promessa de comunhão com os homens? Decerto Cecília viveu a nossa vida, provou dos nossos pratos, deu aula a crianças, conheceu ministros em recepções, considerou o horário dos trens, assinou papéis. Fez de tudo que era necessário fazer para assumir aparentemente condição humana, com direito a carteira de identidade. Mas, se observássemos melhor, sentiríamos que tudo isso eram recursos periféricos, menos para dissimular sua exata natureza, do que para compatibilizar com ela nosso cotidiano pedestre.

Era uma deusa, disto estou convencido, e só não lhe confidenciei minha certeza porque certos mistérios não se revelam. Uma bela mulher é mais do que mulher. Um admirável poeta é mais do que poeta. Cecília Meireles foi as duas entidades e uma terceira, de explicação impossível. E em novembro veio, em novembro se foi. Deusa em novembro.

Carlos Drummond de Andrade, crônica “Deusa em novembro” (fragmento), publicada em 8/11/1969 no Jornal do Brasil.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

#3 - COMO UMA DEUSA x THE POWER OF LOVE

Não bastasse o time feminino dos anos 80 com frequentes aparições televisivas - Gal, Joana, Zizi Possi, Alcione, Adriana "te amar é tão bom", Jane Duboc, entre outras - que botava no chinelo qualquer aspirante a feminejo atual, eis que aparece aos poucos uma figura de perfil exótico, com vocal potente, roupas extravagantes e clipes intoxicados de gelo seco, que dominou as paradas de sucesso brasileira durante semanas, alcançando audiência absoluta também nas rádios. Após gravar uma ou outra canção sem muito sucesso e em 1986 "Nem um toque" ter sido incluída na trilha sonora da novela Roda de Fogo, a apenas Rosana, e atual Rosanah Fienngo - filha de um músico da banda Casanova's - alcançou o estrelato em 1987 através do hit "Como uma deusa", que embalou o o drama da protagonista Jocasta na novela Mandala.

Com o advento do Youtube, achei o clipe igualmente esfumaçado da dupla australiana Air Supply,  detentora de vários sucessos. Gravado na praia, com aquela penumbra ou maresia romântica, a letra fala de um amor caliente com uma musa amada e adorada, ao contrário da versão brasileira que hoje poderia ser considerada equivalente a qualquer baladão do empoderamento feminino, fazendo rachar o solado das rasteirinhas das insubmissas. Na verdade, a letra original chama-se "The Power of Love", enquanto o letrista da versão traduziu meio de trás para frente e ficou "O Amor e o Poder".  Na verdade de novo, a primeira gravação foi feita por Jennifer Rush, e em seguida por Laura Branigan e Celine Dion, e ganhou até uma versão em espanhol (Si tú eres mi hombre y yo tu mujer) com a dominicana Angela Carrasco.

Após saber de tantas gravações, é justificável que nossa deusa também tivesse suas semanas em alguma Billboard Tupiniquim. E só pra não perder o embalo do flahback, uma vez deusa, sempre deusa, nem que apareça na mídia como candidata a vereadora ou nessa revelação bombástica.



O Amor e o Poder (Como uma deusa) - Rosana
A música na sombra
O ritmo no ar
Um animal que ronda
No véu do luar
Eu saio dos seus olhos
Eu rolo pelo chão
Feito um amor que queima
Magia negra
Sedução

Como uma deusa
Você me mantém
E as coisas que você me diz
Me levam além
Aqui nesse lugar
Não há rainha ou rei
Há uma mulher e um homem
Trocando sonhos fora da lei

Como uma deusa
Você me mantém
E as coisas que você me diz
Me levam além
Tão perto das lendas,
Tão longe do fim
A fim de dividir
No fundo do prazer
O amor e o poder



The Power of Love (You are my lady) - Air Supply

The whispers in the morning
Of lovers sleeping tight
Are rolling by like thunder now
As I look in your eyes
I hold on to your body
And feel each move you make
Your voice is warm and tender
A love that I could not forsake

'Cause you are my lady
And I'm your man
Whenever you reach for me
I'll do all that I can

Lost is how I'm feeling lying in your arms
When the world outside's too
Much to take
That all ends when I'm with you
Even though there may be times
It seems I'm far away
Never wonder where I am
'Cause I am always by your side

'Cause you are my lady
And I'm your man
Whenever you reach for me
I'll do all that I can

We're heading for something
Somewhere I've never been
Sometimes I am frightened
But I'm ready to learn
Of the power of love

The sound of your heart beating
Made it clear suddenly
The feeling that I can't go on
Is light years away

We're heading for something
Somewhere I've never been
Sometimes I am frightened
But I'm ready to learn
Of the power of love

domingo, 8 de outubro de 2017

#2 - O ASTRONAUTA DE MÁRMORE x STARMAN

Em 1989, passou no Fantástico o clipe de uma música que fez até aqueles que torciam o nariz para o boom das bandas de pop rock no Brasil deixarem de lado a resistência e curtirem um pouco o novo som. A melodia era linda e tinha uns altos e baixos bem marcantes com violino, com a letra numa forma quase narrativa: afinal de contas, quem era o astronauta de mármore? Essa banda do sul também teve a música "Sobre o tempo"  em uma novela global com causa polêmica, Barriga de Aluguel, e muita coisa boa gravada como "Camila, Camila" e "Extraño", mas é impossível não associar o sucesso da estreia em rede nacional à banda Nenhum de Nós.

Igual a outros casos de sucesso, o "acaso" da sobrevivência e permanência em uma gravadora foi o motivo inspirador da versão, embora sempre tenha a galera purista do contra que sempre tem que fazer a crítica ácida e ficar comparando o que não dá para comparar. Diferente de outros casos históricos de plágio, se o próprio autor autorizou, quem somos nós para questionar? É o que diz Thedy Corrêa nessa entrevista:

"Fomos alvo de amor e de muito ódio. O amor dos que a levaram ao sucesso e o ódio dos críticos e "colegas" que nos acusavam de ter assassinado a canção de Bowie. Ele mesmo não pensou assim, tanto que quando veio ao país – pela primeira vez – no show que realizou em São Paulo, fez referência à nossa versão, convidando as pessoas a cantarem em português se assim quisessem. Alguém poderia – e tinha o direito – gostar ou não do resultado, mas jamais duvidar da honestidade da homenagem!"


O Astronauta de Mármore - Nenhum de Nós

A lua inteira agora
É um manto negro
Oh! Oh!
O fim das vozes no meu rádio
Oh! Oh!
São quatro ciclos
No escuro deserto do céu

Quero um machado
Pra quebrar o gelo
Oh! Oh!
Quero acordar
Do sonho agora mesmo
Oh! Oh!
Quero uma chance
De tentar viver sem dor

Sempre estar lá
E ver ele voltar
Não era mais o mesmo
Mas estava em seu lugar

Sempre estar lá
E ver ele voltar
O tolo teme a noite
Como a noite
Vai temer o fogo

Vou chorar sem medo
Vou lembrar do tempo
De onde eu via o mundo azul

A trajetória
Escapa o risco nu
Uh! Uh!
As nuvens queimam o céu
Nariz azul
Uh! Uh!
Desculpe estranho
Eu voltei mais puro do céu

A lua o lado escuro
É sempre igual
Al! Al!
No espaço a solidão
É tão normal
Al! Al!
Desculpe estranho
Eu voltei mais puro do céu

Sempre estar lá
E ver ele voltar
Não era mais o mesmo
Mas estava em seu lugar

Sempre estar lá
E ver ele voltar
O tolo teme a noite
Como a noite
Vai temer o fogo

Vou chorar sem medo
Vou lembrar do tempo
De onde eu via o mundo azul

A música original, Starman do britânico David Bowie, foi lançada em 1972 e se tornou também um marco na carreira do artista, ainda mais com a banda naquele visual que se configura até hoje como a marca mais conhecida de Bowie, quase como um ícone. "Starman" é a quarta música do disco que conta a história de um marciano que veio mudar a humanidade com música, paz e amor. Nesta matéria há algumas curiosidades da vida e obra do cantor, que também deixou em seu legado participações no cinema, e lançou um musical e um clipe do seu último trabalho às vésperas da sua partida, como se fosse uma consciente despedida.



Starman - David Bowie

Didn't know what time it was and the lights were low
I leaned back on my radio
Some cat was layin' down some get it on rock 'n' roll, he said
Then the loud sound did seem to fade
Came back like a slow voice on a wave of phase haze
That weren't no D.J. that was hazy cosmic jive
There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie
I had to phone someone so I picked on you
Hey, that's far out so you heard him too
Switch on the TV we may pick him up on channel two
Look out your window I can see his light
If we can sparkle he may land tonight
Don't tell your poppa or he'll get us locked up in fright


sábado, 7 de outubro de 2017

#1- MEU MEL x MUSIC

Nos anos 80, a TV é quase exclusivamente o modo dos brasileiros conhecerem um artista e ver sua performance, conhecer um pouco de sua história e pegar carona nas modas e tendências lançadas no combo. Embora existisse a mídia impressa, foi no Chacrinha, Globo de Ouro e, posteriormente, no Xou da Xuxa que aqui em casa a gente se divertia vendo as caras e bocas e a emoção da plateia. Cenas como minhas tias vidradas vendo o boy magia cantando aquele playback fajuto e anotando a letra da música, mainha largando a máquina de costura ou as panelas para ver Roupa Nova, ou as empregadas que paravam tudo para cantar as músicas, sendo que uma delas emocionada causou um grande prejuízo ao derrubar e danificar o rádio de painho marcaram minha infância.

Eu guardo essas memórias de ouvir muitas vezes ao dia as músicas que "estouravam nas paradas de sucesso" e só com a internet foi possível desvendar o mistério, ou seja, as verdadeiras músicas cujas versões ficaram marcadas como originais na minha memória musical. Confesso que me desiludi um pouco, mas também que nossas "criações" não deixam a desejar, e aproveitei para fazer aqui uma série com histórias, letras, vídeos e lembranças dessas canções.

Em 1987, Markinhos Moura ainda era Marquinhos Moura e tocava sua glicêmica Meu Mel em todas as rádios do país e programas de televisão, reunindo os quatro elementos para que a alquimia desse certo e incendiasse os corações juvenis dos anos 80: cabelo com topete descolorido + brinco na orelha + olhar carente + porte físico frágil numa aparência meio andrógina. Infelizmente, esse mel não foi tão doce assim, mas lhe trouxe a público e nesta entrevista quase biográfica, ele descreve os altos e baixos de sua vida e carreira. Embora tivesse a bagagem do teatro e o gosto requintado, Meu Mel fez parte de seu repertório por uma questão de sobrevivência, mas acabou lhe consagrando como um one-hit wonder.



Meu Mel-Marquinhos Moura

Fica comigo meu mel
Tire o adeus das mãos
Não me entregue à solidão meu mel
Porque eu preciso de você.

Lembra da nossa canção, dos nossos sonhos enfim,
O que fazer de tantas coisas sem ter você um pedaço bom de mim

Meu mel não diga adeus, eu tenho tanto
Medo, de ficar sem o seu amor
E pra sempre ser um ser só

Não vá, não saia de mim, eu enlouqueço de vez
Chega mais pra eu olhar no seu olhar
E pedir mais uma vez,

Meu mel não diga adeus,
Eu tenho tanto medo de ficar sem o seu amor,
E pra sempre ser um ser só

A música original e também açucarada é "Music" do francês F.R. David, que foi lançada em 1983 e em 1987 fez parte da trilha sonora internacional da novela Brega & Chique. Eu lembro dessa novela com o cara "pelado, pelado, nu com a mão no bolso" na abertura, mas juro que não lembro dessa música tocando no rádio, só de Now and Forever de Jimmy Cliff, que foi o musicão estilo "We are the word" daquele ano em todas as fitas K7, radiolas, bares e bailes da época. Confira agora a declaração de amor de David pela "Music"!



Music - F.R. David 

Music you're making me blue
While i'm alone without you
Fill my heart and fill my soul
With tenderness
Music fill my loneness

Music is still all around
It's time for changing all the sounds
How about your inspiration
It'll never end
Seasons all will choke a man

(chorus)
When spring is near the end
I hear reliefs of summer
Autumn brings rhythm of the rain
Then it's hazy shade of winter

Music i love you so true
I'm just crazy about you
Without you i'd feel so sad
And full of pain
Music please come back again


#PARTIU GOL

Esses dias recebi um email da Gol onde anunciava a seguinte novidade:




"Para utilizar a exclusividade, basta
fazer o download do app da GOL
no seu celular, abri-lo e selecionar
a função de Selfie Check-in.
Com ela, você não precisa preencher
nenhuma informação. Basta uma foto
do seu rosto para ter acesso ao seu
cartão de embarque."


Em um país onde há mais celulares que o número de habitantes, e onde as pessoas acham que o wi-fi é um novo componente do ar atmosférico, imagine a revolução que será. Acho que sabendo que o melhor da internet é o brasileiro e sua criatividade sem fim, a Gol quis sair na frente, mas será que a empresa está pronta para os bugs que podem acontecer?

Ex1: Selfie fazendo carão, biquinho ou de Rayban do Paraguai. Resposta do sistema: falha no reconhecimento facial por excesso de base e de adereços. Favor, remover maquiagem com água micelar e deixar os olhos à mostra.

Ex2: Selfie fazendo carão, mas dessa vez em ângulo estilo beijinho no ombro. Resposta do sistema: falha no reconhecimento facial, pois não consta nos dados que o passageiro é portador de necessidades especiais.

Ex3: Selfie com o bilhete em mãos e mala ao fundo, porque aí já seriam fortes indícios de que essa pessoa pretende tecnicamente (como dizem os americanos) viajar. Aí já aproveita e posta a #partiugol nas redes sociais para ter testemunhas, caso perca o voo.

Ex4: Selfie com o animal de estimação. Resposta do sistema: nosso app só está habilitado para reconhecer humanos. Mas não custa nada perguntar: qual dos dois vai viajar?