quarta-feira, 16 de maio de 2018

DECLARAÇÃO DE AMOR


Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. […] A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais c omplicado. As vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – Como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes a galope. Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo em minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não fale do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria. inglês, que é preciso e belo. Mas, como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
LISPECTOR, C. A descoberta do mundo Rio de Janeiro Rocco, 1999 (adaptado).

sábado, 14 de abril de 2018

A MELHOR IDADE DE MARINA LIMA


"Eu conquistei os 60. Vou para frente na fila do avião. Pago meia entrada. A única coisa estranha é que tenho mais dor na lombar. Fora isso, uns cabelos brancos. Sempre gostei de parecer mais velha. Meu dia chegou."

O EXAME POÉTICO DE GIL


"Ela mandou arrancar quatro pedacinhos do meu coração
Depois mandou examinar os quatro pedacinhos
Um para saber se eu sinto medo
Um para saber se eu sinto dor
Um para saber os meus segredos
Um para saber se eu sinto amor."
(Gilberto Gil)

A COLHEITA DE NANDO REIS


"Então, eu estou muito satisfeito, assim, a sensação, eu posso descrever que eu tenho, eu levei 50 anos para subir uma colina, agora eu quero olhar a paisagem e curtir o lugar que eu estou. Cansei de ficar sempre sonhando, eu tenho muita coisa, eu tenho muita coisa linda que eu construí e aliás, a força construtiva foi sempre muito maior do que a destrutiva."
(Nando Reis)

sábado, 31 de março de 2018

ESTAÇÕES NO CAMINHO PARA A LIBERDADE

DISCIPLINA

Se saíres em busca da liberdade, aprende, antes de tudo,
disciplina dos sentidos e de tua alma, para que os desejos
e teus membros não te levem ora para cá, ora para lá.
Casto seja teu corpo e teu espírito. plenamente sob teu domínio
e obediente na procura do alvo que lhe foi colocado.
Ninguém experimenta o mistério da liberdade a não ser pela disciplina.

AÇÃO

Não qualquer coisa, mas o correto deve ser feito e arriscado;
não se deve flutuar no possível, mas agarrar valentemente o real;
a liberdade não está no vôo dos pensamentos, mas tão-somente na ação.
Sai da medrosa hesitação para a tempestade dos acontecimentos,
sustentado apenas pelo mandamento divino e pela tua fé,
e a liberdade acolherá teu espírito com júbilo.

SOFRIMENTO

Maravilhosa transformação. As mãos fortes e ativas
estão amarradas. Impotente e solitário, vês o fim
de tua ação. Não obstante, respiras aliviado e colocas o correto
tranqüila e confiantemente em mãos mais fortes e te dás por satisfeito.
Só por um momento tocaste, feliz, a liberdade,
entregando-a então a Deus para gloriosa consumação.

MORTE

Pois vem, festa máxima no caminho para a eterna liberdade;
morte, destrói as fatigantes correntes e muralhas
de nosso corpo passageiro e de nossa alma cega,
para que finalmente vislumbremos o que nos é negado ver aqui.
Liberdade, procuramos-te longamente em disciplina, ação e sofrimento.
Morrendo, te reconhecemos agora na face de Deus.


Por Dietrich Bonhoeffer
Tradução de Helberto Michel
Extraído de: Bonhoeffer, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 2005.

quinta-feira, 8 de março de 2018

EU GOSTO DE SER MULHER...

Eu gosto de ser mulher
Sonhar arder de amor
Desde que sou uma menina
De ser feliz ou sofrer
Com quem eu faça calor
Esse querer me ilumina

Eu gosto de ser mulher
Que mostra mais o que sente
O lado quente do ser
E canta mais docemente
(Antonio Cícero / Marina Lima)

Blue Nude, Sunset (1952)