sexta-feira, 17 de julho de 2020

CINCO CASAS E O POETA

O diplomata, poeta, cantor e compositor Vinicius de Moraes viveu intensamente tudo que lhe foi permitido. Nasceu na Gávea, morou em Botafogo, passou férias escolares na Ilha do Governador e rodou o mundo (Oxford, Londres, Los Angeles, Paris, Montevidéu e Roma), para enfim retornar ao bairro onde nasceu. Lendo sua biografia quis muito reconstituir seus passos e fazer uma linha do tempo, mas me limitarei apenas mencionar algumas edificações que mais me chamaram a atenção ao longo da leitura de seus endereços no Rio de Janeiro mais marcantes.

1- Rua do Catete, 243 - Catete

Me surpreendi ao constatar que o local que tantas vezes passei e achei que era um cortiço tratava-se na verdade da Faculdade de Direito da antiga UEG (antiga Universidade do Estado da Guanabara e atual UERJ), que funcionou a partir de 1943 e atravessou o período da ditadura militar. Nesse prédio de 1822 o poeta iniciou aos 17 anos o curso de Direito, onde entre confrarias e o Centro Acadêmico Jurídico Universitário arriscou seus primeiros ensaios versados na ideologia de direita. Detalhes adicionais e notícias de seu futuro incerto encontram-se aqui.

                                  


2- Avenida Marechal Floriano, 196 - Centro

Em 1940, Vinicius está casado com Tati e decide tentar o concurso do Itamaraty mais por necessidade de organizar suas finanças do que por vocação. Não passou de primeira, mas na segunda vez teve aula de português com Antonio Houaiss, que a essa altura tem um cursinho preparatório, sendo aprovado.

O Palácio Itamaraty foi construído em 1908, na gestão do Barão do Rio Branco, hoje Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro e fica próximo à agitada estação Central do Brasil. 

A belíssima edificação tem arquitetura neoclássica, rica decoração interior, um jardim interno e um espelho d´água orlado por duas alas de palmeiras imperiais centenárias. Atualmente, abriga entre outros órgãos o Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD), criado em 2001 com o objetivo de promover e divulgar estudos e pesquisas sobre história diplomática e das relações internacionais do Brasil.

                             


3- Rua Paulo César de Andrade, s/n - Laranjeiras

Este endereço abriga o Conjunto Residencial e o Parque Guinle, um mini oásis próximo ao Largo do Machado com edificações de Lúcio Costa e paisagismo de Burle Marx. Era 1958, Vinicius estava casado com Lúcia Proença e foi lá que ele se retirou com Baden Powell para compor os famosos afro sambas no início dos anos 60.

Contam os registros que O Parque Eduardo Guinle, ou somente Parque Guinle, foi concebido originalmente na década de 1920 como os jardins da residência de Eduardo Guinle, um palacete neoclássico. Em 1940, o parque passou ao governo federal e, em 1943, foi objeto de um plano de urbanização desenvolvido por Lucio Costa, que propôs um conjunto de seis edifícios residenciais. Mais informações de cunho técnico e imagens encontram-se aqui.
 
História do Parque Guinle - Diário do Rio de Janeiro


4- Rua Flamengo, 44 - Itapuã

Preciso abrir uma exceção para o "branco mais preto do Brasil", para falar do período em que Vinicius residiu em Salvador, onde fez muitos amigos e compôs "na banheira" com seu último parceiro Toquinho muita coisa boa. No início dos anos 70, a paixão por Gessy Gesse fez o poeta migrar e se fixar no endereço onde atualmente está o restaurante Casa di Vina, que abriga em um cômodo uma pequena mostra de seus pertences. A casa construída em frente ao Farol de Itapuã tinha ares muito modernos e, a princípio, o poeta não curtiu muito seus traços. Próximo ao local foi inaugurada em 2003 uma praça com uma estátua onde o poeta pode nos dar conselhos amorosos enquanto contempla o mar.

                                 Casa di Vina Memorial (Salvador) - ATUALIZADO 2020 O que saber ...

5- Rua Frederico Eyer, 149 - Gávea

 “Sou carioca da Gávea, bairro amado, de onde nunca deveria ter saído", disse Vinicius, em versos escritos em 1969. Vinicius costumava deixar tudo para trás quando se separava, levando apenas sua escova de dentes e o quadro-retrato do Portinari. Nesse endereço o poeta mais uma vez inventou um lar onde viveu seus últimos dois anos de vida com sua última companheira Gilda Mattoso. Foi lá que ele partiu imerso numa banheira na manhã de 9 de julho de 1980, fazendo simbolicamente um retorno ao útero materno.

                                          ABr161013 DSC1227


sábado, 4 de julho de 2020

SOLIDÃO CONSCIENTE

"Eu tenho uma solidão que eu busco, que sempre busquei. 
É uma solidão consentida e desejada. 
Eu tô muito bem comigo mesma. 
Eu gosto de ficar sozinha.
Eu não quero ninguém em casa depois das seis horas da tarde
Eu me dou bem comigo mesma
Eu me considero uma ótima companhia." 
(Marília Gabriela)

terça-feira, 30 de junho de 2020

AS MULHERES BEM RESOLVIDAS DE CHICO BUARQUE



No livro 101 Canções que Tocaram o Brasil,  Nelson Motta cita que para "além desse conhecimento dos desvãos da alma feminina, Chico toca onde os homens mais sentem o que as mulheres lhe dizem, onde mais doem suas palavras e lembranças, onde mais os ferem seus ódios e rancores, suas mentiras e traições. Nos diversos personagens que ele criou, as mulheres se sentem representadas - os homens sofrem com as mulheres de Chico."

Inspirada nesse comentário, fiz uma breve busca e encontrei sambas e valsas com declarações e apelos, vários títulos com nome das musas, mas também as obras nas quais a protagonista mandou aquele recado estilo "o mundo dá voltas! Me aguarde!". Seguem abaixo alguns exemplos e impressões:

Olhos nos olhos - feita sob medida pra voz de Bethânia, fica difícil identificar um trecho que não seja um "olha aí que eu passo é bem sem você por perto". A melodia traz um tom reflexivo e meio cabisbaixo, ao contrário do que narra a protagonista. 

A Rita - eita, mulher cruel! Essa aí arrasou com vontade. Lembra os sambas pré-bossa nova, mas com tamanho charme e leveza que a gente canta e nem presta atenção na letra.

Folhetim - apesar de boas atrizes terem interpretado a canção na peça Ópera do Malandro, cada sílaba cabe indiscutivelmente na voz de Gal Costa. Os censores já andavam cansados e não perceberam que se tratava do relato de uma prostituta, mas poderia ser lido hoje sob a ótica da sugar daddy ou da mulher livre, leve e solta. 

O Último Blues - composta para o filme Ópera do Malandro, lembra muito Romance Ideal dos Paralamas do Sucesso. Tanto naquela, como nessa a dona da situação explora o recurso da liberdade que a idade oferece para brincar de seduzir e deixar pra lá. 

Joana Francesa - feita para o filme interpretado pela atriz francesa Jeanne Moureau, traz um lindo enredo poético consciente de sua efemeridade. Isso se confirma nos versos "songes et mensonges sei de longe, sei cor", que Nara Leão canta com seu jeito cool na minha versão favorita, capturando em definitivo o caráter buarquiano de mergulhar na alma feminina. 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

SONHO ACORDADO

Ilustração de Kathrin Honesta

"Ontem fui na padaria e pedi dois sonhos, só por garantia caso um deles não se realizasse."
(Flávia Jorlane)

domingo, 21 de junho de 2020

NÃO, OBRIGADA!

                                                 Carioca Nerd: As 5 piores declarações do Youtube
Ah, eu e o Youtube, o Youtube e eu. Não sei se é porque passei muitos anos sem televisão, mas de todas as redes sociais essa é a que eu mais curto! Mas nem tudo são flores nesse affair. Tem coisas que são trashes e que eu não sei o que a pessoa pensou na vida pra ter coragem de postar um conteúdo tão ruim. Quer dizer, eu sei! O desejo de ganhar um dinheirinho ou ficar famoso, sei lá! Eu poderia fazer uma lista enorme, um relatório, um dossiê, mas selecionei apenas 5 coisas pelas quais eu não dou um centavo de dólar de audiência.

1-Propagandas - tem coisa mais chata do que TikTok com aqueles vídeos bestas de casal ou pegadinhas ridículas? Eu reclamava que o Kwai era ruim com aquela música chiclete e aquela imagem falsa de um homem de bermuda tocando violoncelo nos Alpes Suíços, mas aí veio um pior. Tem canais que eu respeito tanto que até deixo rolar o anúncio, mas em outros realmente não dá. Ainda vou ter coragem de fazer uma assinatura Premium só pra me dar ao luxo de não precisar pular essa etapa.

2-Vídeo de casal onde um fala e fica conversando com o que grava - Aí o Lombardi que grava fica famosinho e resolve criar um canal também. Aí o filho nasce e também ganha um canal. Aí vira meio que o Show de Truman, novela, série...sinceramente, não dá!

3-Vídeo que enrola muuuito e ainda dá informação errada - gente, tenham um pouco de dignidade! A galera destrói o (a) camarada nos comentários e a pessoa não tá nem aí.

4-Vídeo com "capa" de outro canal - você vê quela imagem linda da receita, com título bem feitinho, mas que quando a gente clica não tem nada a ver, bem estilo expectativa x realidade. De fato, nem os algoritmos são capazes de desvendar o jeitinho brasileiro.

5-Clickbait - esse é o top five! Essa técnica pode até ser usada de forma positiva, mas é tão chato quando seu youtuber preferido começa a se valer disso. Fica aquele vídeo com 500 perguntas e aquela cara teatral de "oh céus, oh vida", e no final até protagonista se perde do enredo.

PS: Só pra não perder a oportunidade, esse post não tem meta de likes, nem requer seu apoio, mas pode deixar nos comentários o que mais te irrita no You Tube. Até a próxima!


 

LABIRINTO

                                             4 dicas de autocuidado com a saúde mental
 
"Quero a sua mão no meu cabelo
Que é pra desembaraçar meu pensamento
Quero respirar o teu perfume
Que é pra descongestionar meu peito
O amor é um sentimento tão difícil de explicar
É um labirinto

Só pode a cada dia complicar
Cada dia melhorar
É um labirinto
Seu código é a frequência do olhar"
(Guilherme Arantes)

quinta-feira, 18 de junho de 2020

QUIMICAMENTE FALANDO...(I)

                    

O Dia do Químico é celebrado no dia 18 de junho, pois foi nessa data que o antigo presidente, Juscelino Kubitschek, assinou a Lei n° 2.800/1956, também conhecida por "Lei Mater dos Químicos", que criou os Conselhos Federais e Regionais de Química e regulamentava a profissão.

Pesquisando mais sobre esse dia, trago abaixo recortes muito interessantes do artigo "Uma breve história da química brasileira", que tratam do que hoje é tão comum para alunos, professores, pesquisadores e técnicos dos mais diversos ramos atuais dessa ciência incrível que eu amo!
  • Primeiro curso:
O primeiro curso foi de química industrial, no nível técnico, no Makenzie College que, quatro anos depois, em 1915, se tornou curso de nível superior. Neste mesmo ano, foi criada a Escola Superior de Química da Escola Oswaldo Cruz. Mas, a explosão dos cursos regulares de química só viria a ocorrer a partir do artigo "Façamos químicos", do farmacêutico formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, José de Freitas Machado, publicado, em 1918, na Revista de Chimica e Physica e de Sciencias Histórico-Naturaes. A presença de Freitas Machado no cenário da química no país estendeu-se até o ano de 1946, quando se aposentou pela Escola Nacional de Química, hoje Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da qual foi o primeiro diretor (1934-1935).
  • Primeiro Instituto:
Em 1918, ocorreu a criação do Instituto de Química, idealizado pelo médico Mario Saraiva e por ele dirigido durante vinte anos. Na origem desse instituto, está o Laboratório de Defesa e Fiscalização da Manteiga, cujo principal propósito era a análise da manteiga consumida no Brasil, toda ela importada da França até fins da década de 1920. 
  • Primeira Associação:
Em 1922, foi criada a Sociedade Brasileira de Chimica como uma das decisões do primeiro Congresso Brasileiro de Química, que ocorreu naquele ano, no bojo das celebrações do primeiro centenário da independência do Brasil. Em 1933, a grafia foi alterada de chimica para química, e a Sociedade existiu até 1951. Seu primeiro presidente foi José de Freitas Machado, após a presidência provisória do professor Daniel Henninger, da Escola Politécnica.

O artigo completo está disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252011000100015