Sabe quando a gente revira papéis numa gaveta e encontra um pedaço com algo escrito por uma pessoa muito querida? Foi o que aconteceu comigo ontem. Fui conferir a data de aniversário numa agenda antiga e lá estava o dia dela, 26 de março, e um papel com números de telefone. Na hora só pensei em guardar de lembrança, pois não temos uma foto juntas, embora ela seja minha mãe carioca e uma super amiga que tanto cuidou de mim no Rio.
Era 2002 e eu estava fazendo mestrado e me sentindo muito sozinha, morando novamente em casa de parentes e sem conhecer ninguém no bairro. Uma amiga psicóloga sergipana "telefonou" e notou, sem eu dizer uma palavra, que eu não estava bem. Na mesma noite um primo dela ligou, se apresentou e marcou pra gente sair. E dessa saída veio o convite pra um evento da igreja mais adiante, onde a providência disfarçada de coincidência fez com que Cleber, aspirante a seminarista, me levasse em casa e me apresentasse ao padre Paulo Hamurabi. Este, recém chegado à Paróquia de Santa Rita de Cássia, me convidou para o serviço paroquial e eu fiquei de pensar.
Como o cenário não mudava e o estranhamento e o choque cultural persistiam, decidi fazer uma experiência na Pastoral do Batismo após ver uma celebração bem diferente das que já tinha visto. E como eu vou sempre atrás do que eu quero, fui na secretaria que me indicou o "Manel" do bazar, que indicou uma certa Dona Márcia. Lá vou eu bater palma na casa de uma completa estranha e me apresentar. E o papo que era ela dentro de casa e eu a uns 4 metros depois na calçada foi melhorando e encurtando a distância, até que um dia ela abriu o portão e eu fiquei na varanda, e alguns encontros depois finalmente adentrei na sala. É como eu costumo dizer: são os estágios do carioca, que depois que lhe aceita te considera da família.
E assim eu fui ficando, participando das festas, aprendendo expressões que eu não esqueço como "mentirinha santa" e "voz de Taquara rachada", pra não falar das inesquecíveis receitas de bolo Hulk, a sopa de entulho, a farofa de biscoito e o pão dormido que ela me dava. Foi ela quem me ajudou quando eu precisei urgentemente de um novo teto e Deus novamente quis me dar um presente, fazendo com que a dona da casa dos fundos de Márcia, Delei e Juliana cedesse e alugasse a casa para uma estudante baiana. Foi o ano e meio mais feliz da minha estadia no Rio. Nos víamos todos os dias e tinha até uma grade nos fundos que a gente economizava a passada e ficava trocando figurinha até tarde da noite.
Por tudo que você foi na vida de muitos, sei que você está em um bom lugar, minha querida Márcia cujo sobrenome "Generoso" estava impresso no DNA dessa alma nobre que me acolheu e que me amparou quando eu mais precisei. E como costumávamos brincar, se a vida lhe oferecer flores, escolha as rosas sem espinho do jardim da Dona Márcia!
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