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terça-feira, 16 de julho de 2024

O QUE EU POSSO SER PRA VOCÊ?



Agora, bem aí, aonde você está
Sozinha, olhando pro mar
Se o mundo parece não se mover
O que eu posso ser pra você?

Um atalho pra casa, 
uma folha no vento
O gesto gentil de alguém
Um agasalho quando escurecer
O que eu posso ser pra você?

Se nada anda, tenha paciência
Retribua se alguém te sorrir
Cante uma canção pro seu bem-querer
O que eu posso ser pra você?

Um dia em Provença
Perto de Brignoles
O primeiro homem a pisar no sol
Só pra ver
O gelo da dor derreter
O que eu posso ser pra você?
É o que eu quero saber

(Um dia em Provença - Paralamas do Sucesso)

segunda-feira, 15 de julho de 2024

PRA TE ESPERAR EU VEJO TV

"Sonho, odisséia, magia, lógica, poesia, dor, Éden, unidade, alegoria, toque, amplidão, semente, linguagem, alimento, futuro, aura, espelho, via, eterno, átomo, matéria, nada, arte, tudo somos na insanidade exata do amor!" (Baile - Djavan)

PS: Erika e Marisa, saudades do tempo em que trocávamos versos de canções ou letras inteiras nos corredores da UFS. Viver era mais fácil e a gente nem desconfiava das responsabilidades que o futuro nos traria.

terça-feira, 9 de maio de 2023

10 X JOÃO BOSCO

Esses dias voltei a ver o canal de Rodrigo Faour, um jornalista carioca que já publicou ótimos livros sobre música brasileira e me deparei com uma série sobre João Bosco. Do mesmo modo que me ocorreu com outros cantores como Ivan Lins e Milton Nascimento, dele eu só conheço as canções que tocaram em novelas e outras apresentadas por minha irmã preta Marisa. Sei que há algumas de cunho político bem famosas, assim como outros sambas ou boleros clássicos do repertório joaobosquiano, mas eu realmente só vi os títulos em lista de canções ou no YouTube. Tem ainda as que Elis gravou e que ficaram pra ela em definitivo e pronto, como "Dois pra lá, dois pra cá" e "O bêbado é o equilibrista", mas as que seguem abaixo são as que ouvi no rádio ou na TV ainda nova, sem nada entender da letra, mas já ligada na melodia. 

Jade - quem lembra de Lima Duarte, o matuto e analfabeto Sassá Mutema e a professora Maitê Proença? Lua e Flor tocou incansavelmente em todas as mídias, e somente anos mais tarde descobri e relembrei essa joia perdida na trilha sonora de O Salvador da Pátria. 

Papel Marché - das minhas primeiras audições da Del Mar FM de Aracaju e um clássico de barzinho e violão. 

Sinceridade - bastava tocar o início meio à la Djavan em Tieta eu já curtia. Somente na faculdade Marisa me ensinou a letra. A essa altura acho que estavam reprisando a novela.

Miss Suéter - numa entrevista João falou que recordava de ouvir Ângela Maria e de uma aparição épica que ela fez em sua cidade natal. Descobri essa peça rara por acaso no YouTube e aqui tem todos os detalhes do famoso concurso que inspirou a canção. Ah! E ele tem um clipe com sua musa em carne, osso, voz e laquê.

Latin Lover - das minhas madrugadas de JB FM escrevendo a tese, mais uma parceria dele com Aldir Blanc. Só que eu levei um tempo pra entender que era ele cantando e não Eduardo Dusek, talvez pelo jeito de interpretar algo cotidiano com um toque de musical.

Desenho de Giz - não sei que nome se dá à técnica de cantar/quase recitar a letra quase sem som e depois recomeçar com o instrumental completo, mas é isso que ocorre nessa aqui.

Memória da Pele - assim como na anterior, o início traz essa técnica que já dá o tom do drama. Mas uma obra-prima que traz como parceria Waly Salomão e que usa elementos do cotidiano pra realçar a dor do amor perdido. 

Corsário -  "Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado"... e o resto é um show de metáforas da arte de misturar palavras e criar poemas. 

Quando o amor acontece - "o amor quando acontece a gente esquece logo o que sofreu um dia?". Segundo ele e Abel Silva, "esquece sim", rs. O nome do disco de 1987 é simplesmente Ai Ai Ai de mim. Peguem seus lenços, please!

Bijuterias - foi quem motivou esse post, e me fez lembrar de O Astro, e me fez buscar a análise tão interessante de uma canção mal compreendida, e saber que já existiu uma loja famosa no Rio chamada Sloper que vendia cristais e otras cositas más.

Bônus: já ia esquecendo do clássico bolero Enquanto espero de Por Amor e da última que conheci, Terra Dourada, tema praieiro de qualquer cena de Búzios em Vale Tudo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

MEU NOME É GAL II

Gal, musa da tropicália

Índia fa-tal 

Seja no Folhetim de Chico

ou no Azul de Djavan

ainda é preciso estar atento e forte

pra viver no Brasil de Cazuza

o Divino Maravilhoso de Gil te acolhe

como a Luz do Sol de Caetano

porque João Gilberto estava certo: 

você será (e foi) a maior cantora do Brasil!

(Flávia Jorlane)

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

ANTEONTEM MUSICAL

Houve uma série da Globo chamada "Por toda minha vida" que deixou boas lembranças. Recordo dos episódios de Renato Russo, Nara Leão e resgatei esses dias o de Cazuza.

Lembro que quando eu tinha 10 anos "Faz parte do meu show" tocava muito no rádio por causa da novela Vale Tudo e do casal Afonso e Solange, injustiçados pela azeda da Maria de Fátima e seu comparsa César. Três anos depois "Codinome Beija-flor" tocou mais ainda tanto na novela na voz de Luiz Melodia, como na voz do próprio Cazuza. Antes disso, tínhamos uma fita K7 com um lado "Trem da Alegria" e outro contendo os sucessos do ano. "Exagerado" sempre tocava nas viagens, junto com outras internacionais como "I guess that's why they call it the blues". Como Mainha costumava comentar, a gente já sabia até o trecho da estrada que ia cantar! Rs

Mas voltando a Cazuza, no final de 1989 perdi um tio muito importante e referência na minha vida. Ele faleceu de AIDS quando o Brasil começava a falar disso. Acompanhar a luta de Cazuza foi como aceitar que essa doença era perversa e que não escolhia classe.

Ainda hoje ouvir Cazuza soa em meus ouvidos como algo atual, pela melodia e poética das letras. E me remete inevitavelmente à dor da perda de Tio Guilherme, mas ao mesmo tempo ao Brasil do Globo de Ouro, Clipes do Fantástico, Chacrinha e trilhas de novelas que me permitiram ter acesso a obras que fazem parte do meu recorrente anteontem musical forever and ever.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

"QUAL É A MÚSICA?": CHUVA

Desde junho que a chuva chegou em PA e não quis mais ir embora. Tem chovido dia sim, dia sim, um não, outro sim a ponto de fazer frio de 18°C à noite e o mofo fazer a festa! Aproveitei pra voltar com a playlist das tags. Vamos lá!

"Mais um dia passa, fico sem te ver, na canção do rádio tento te esquecer. Oh baby, chuva fina traz vc..." (como esquecer Robby Rosa?)

"Olha, está chovendo na roseira..." (o verbo também tá valendo, rs)

"Certos dias de chuva nem é bom sair de casa, agitar, é melhor dormir!" (concordo plenamente com Guilherme Arantes nessa hora)

"Cai a chuva no fim do dia molhando meus sonhos e em silêncio enxugo os meus olhos" (musicão chiclete romântico de novela)

"Chove chuva, chove sem parar!" (já é o terceiro post sobre o tema, e eu amo ver a chuva, menos suas consequências)

"Chuva de prata que cai sem parar, quase me mata de tento esperar" (só me lembro de Gal no Chacrinha e minha tia tentando copiar a letra).

"Vamos ser outra vez nós dois, vai chover pingos de amor" (um hit é sempre um hit)

"Se chove lá fora, queimo aqui dentro /De vontade de te abraçar/ Amor, quando chove/ Fica mais triste a espera/ Por alguém que não vai chegar" (já ia esquecendo da linda versão de Nelson Motta para uma canção italiana que tocou muito na novela A Viagem na voz de Patrícia Marx)

(aguardando sugestões)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO

Não sou conhecedora da obra inteira de Nara Leão, mas por ela estar presente nos registros da Bossa Nova como moradora do famoso apartamento, e ter rompido com o movimento para explorar outras camadas é que me interesso pelos documentários sobre ela.  

Já assisti ao Ensaio e ao Por Toda Minha Vida, e agora estou concluindo O Canto Livre de Nara Leão, que como alguns jornais da época já registraram, mostram que ela cantou o que teve vontade, namorou quem quis e falou sobre o que deu na telha em inúmeras entrevistas.

No terceiro dos cinco episódios da série, Chico Buarque lê o que escreveu para o disco Vento de Maio (1967), o que resume um pouco do que ela era e seria até o fim de sua trajetória. 

"A primeira vez que vi Nara Leão achei que ela era a Musa, minha e da bossa nova. Depois, Nara foi se desmusando, se desmusando... Cortou curto os cabelos, meteu uns blue-jeans e saiu por aí. Mais romântica, menos intimista, gritou umas verdades no teatro. As verdades ficaram no teatro e Nara foi para a televisão. Levava a sua verdade e a música brasileira para o grande público."

quarta-feira, 16 de junho de 2021

PARA ENTENDER A ABELHA RAINHA


Fevereiros começa com Maria Bethânia recitando Inicial (1972) da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen:

"O mar azul e branco e as luzidias 
Pedras: O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida."

Em seguida, Caetano Veloso relata sobre sua irmã: 

"Conheço a voz de Bethânia desde dentro, ela foi se desenvolvendo pertinho de mim e tinha os elementos genéticos que estão presentes na minha própria voz, na de meus outros irmãos, nas de meus filhos. Sua voz sempre foi assim peculiar, com tons de cobre e de água marinha. É uma textura que veicula sentimentos de inteligência intensos e imediatos. É uma voz pessoa, indissociável, e desde sempre atada à música através da poesia."

Ganhei Fevereiros de Luan Almeida durante um feriado qualquer nessa pandemia, e me lembrei imediatamente dos outros filmes-documentário que assisti sobre a Abelha Rainha, apelido que os fãs costumam dar à diva santoamarense. Foram circunstâncias inusitadas, mas muito gentis e até mesmo divertidas. 

1- Maria Bethânia: Música é Perfume (2005)

Foi produzido e dirigido por Georges Gachot e traz a seguinte sinopse: uma análise do processo criativo da cantora Maria Bethânia e o mapeamento do processo de formação da música popular brasileira. Nos anos 60 Bethânia surge, ao lado de Gal Costa, como uma das musas da contracultura brasileira e da resistência ao regime militar, no espetáculo Opinião. Ao longo do tempo ela se torna uma das mais cultuadas intérpretes da MPB. O filme traça um paralelo entre a sua vida e as transformações sociais ocorridas no Brasil. Só pude conferir a obra através de meu amigo tucanense Jadilson Pimentel, que me emprestou o dvd em uma de nossas primeiras conversas sobre gostos e preferências culturais. É nesse documentário que ela fala a célebre frase "detesto pôr-do-sol", rs.

2- Maria Bethânia: Pedrinha de Aruanda (2006)

O filme de Andrucha Waddington é um registro singular da intimidade da nossa grande artista. O ponto de partida é a comemoração do aniversário de 60 anos da cantora, celebrados durante uma apresentação em Salvador e uma missa em Santo Amaro da Purificação, sua cidade natal, em 2006. É na casa onde a artista passou sua infância e adolescência que acontece o ápice do filme: a seresta familiar na varanda, com a participação de sua mãe, Dona Canô, do irmão, Caetano Veloso, e do violonista e maestro Jaime Alem, entre outros. Neste encontro, Maria Bethânia revela sua história a partir de músicas que a acompanharam ao longo de sua vida. Devo esse agrado a meu amigo Leandro Rosa, que não somente descobriu onde e quando passava, como a linha misteriosa de ônibus que nos levou até o destino-experiência, rs. Ao sairmos da sessão fomos brindados com um cover de Gal Costa em um espaço aberto com um chafariz, onde meia dúzia de gatos pingados pararam para prestigiar o pocket show, ao contrário da gente que comemorava aquele momento ímpar e gratuito em pleno meio de semana.

3- Fevereiros (2019)

Aqui temos um registro da vitória da escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira em 2016, que teve um enredo homenageando a baiana Maria Bethânia. Além de filmar a escola e os preparativos do barracão, a produção acompanha a cantora nas festas da Nossa Senhora da Purificação, na Bahia. Segundo o diretor Marcio Debellian, "o que me interessou desde o início, independente do resultado que o carnaval viria a ter, foi o recorte que a Mangueira escolheu para o enredo. Entre as inúmeras possibilidades de se homenagear Maria Bethânia, a escola escolheu tratar da sua devoção religiosa, do seu sincretismo pessoal que junta o candomblé, devoção católica e sabedorias herdadas dos índios". O filme é uma aula de história e tolerância, de vida e de festejos, como se fosse (tomara que não) o desfecho da trilogia iniciada em 2005.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

"QUAL É A MÚSICA?": TUDO

Tudo o que eu cantar aqui, agora, você pode pensar que já, já ouviu...

Tudo era apenas brincadeira que foi crescendo, crescendo e me absorvendo. 

Tudo que move é sagrado e remove as montanhas com todo cuidado, meu amor.

Tudo bem quando termina bem e os meus e os seus olhos não estão rasos d'água. 

Tudo que viceja também pode agonizar e perder o seu brilho em poucas semanas.

Tudo bem, tudo zen meu bem, tudo sem força e direção.

Tudo em volta está deserto, tudo certo. Tudo certo, como dois e dois são cinco.

(aguardando sugestões)



quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O QUE ELES ESTUDAVAM ANTES DA FAMA?

Sempre me interessei por histórias de quem faz várias coisas e com talento, ou por aquelas que começaram no leste e foram parar no oeste. Esses dias assistindo a cigarra Simone em Bial, descobri que ela jogava basquete e é formada em Educação Física. Dia desses também soube que Ivan Lins é Bacharel em Química, mas o dom pra composição e a participação no MAU-Movimento Artístico Universitário falou mais alto.

Pesquisando um pouco mais, notei um fato corriqueiro entre muitos cantores que iniciaram sua carreira artística quando cursavam arquitetura. Alguns não chegaram a se formar, como Chico Buarque e Guilherme Arantes que estudavam na FAU, a famosa Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Herbert Viana fazia arquitetura na UFRJ, mesma instituição onde Tom Jobim também estudou quando o curso ainda era lotado na Faculdade Nacional de Arquitetura do Rio de Janeiro. Humberto Gessinger na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde já levava em paralelo a carreira de músico. Roger Moreira foi ainda até o terceiro ano na Universidade Mackenzie.

(em construção/aceitando novos dados)

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

MEMÓRIA MUSICAL - PARTE 2

                                         Documento que mostra a censura de

Continuando e antecipando uma canção bônus, no ano de 1974 após sofrer várias intervenções, proibições e retoques em sua obra, Chico Buarque passou a perna nos censores ao gravar esse recado bem dado se passando por Julinho de Adelaide: "Acorda amor/ Eu tive um pesadelo agora/ Sonhei que tinha gente lá fora/ Batendo no portão, que aflição / Era a dura, numa muito escura viatura". Sumiços repentinos vinham ocorrendo e o compositor alerta o ouvinte poeticamente no final: "Não esqueça a escova, o sabonete e o violão". 

7- Nada será como antes - Elis Regina (1971)
Gravada sequencialmente por Joyce, Elis e no antológico Clube da Esquina, a parceria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos rendeu até gravações de Sarah Vaughan e Herbie Hancock no exterior . Recorro novamente a Nelson Motta que foi minha motivação para fazer essa pesquisa, para sintetizar o espírito da época: "refletia o turbulento período político que o Brasil atravessava, com a repressão aterrorizando a juventude e o perigo escondido em cada esquina, quando a vida na estrada passou a ser uma opção para tantos jovens insatisfeitos". O tempo passou e a canção permanece atual na nossa frágil democracia, resistindo na boca da noite e no coração dos militantes um gosto de sol.

8- Cálice - Chico Buarque (1973)
Não é de se admirar que a canção ficou muda e amordaçada, engavetada por cinco anos até ser lançada. Mesmo com os anos de chumbo já mais arrefecidos, sua poesia pungente a tornou mais um clássico na coletânea dos símbolos de resistência. No atual contexto, mais de quarenta anos depois muitos brasileiros ainda adotam esses versos: "Atordoado eu permaneço atento/ Na arquibancada pra a qualquer momento/ Ver emergir o monstro da lagoa". Não cale-se!

9- Cartomante - Ivan Lins (1978)
Como mencionei no post anterior, destacarei aqui as versões de maior sucesso. Nesse caso, mesmo Elis roubando a cena anos depois na regravação com Ivan ao piano e no coro do refrão, tenho que dar o braço a torcer para o talento deste grande cantor e compositor. Desde 1970, Ivan Lins vinha concorrendo em festivais e participava do MAU-Movimento Artístico Universitário, onde Aldir Blanc e Gonzaguinha também davam seus primeiros passos. A canção cheia de críticas e ironias escondidas nos conselhos de uma simples cartomante é uma espécie de oração profética sobre os anos vindouros e ganhou até clipe no Fantástico!

10- Aos nossos filhos - Ivan Lins (1978)
Encerrando o lado B do álbum "Nos dias de hoje", que contou em seu repertório com a canção anterior,  só conheci "Aos nossos filhos" por ouvi-la na abertura da minissérie "Os dias eram assim" (Globo, 2017). Neste site há um resumo do triste cenário e do clima que ainda pairava: "Através de “Aos nossos filhos”, toda uma geração pedia “perdão” pela falta de abraços, escolhas e espaço; pelos perigos e sufocos impostos pela ditadura. E lançava para as futuras gerações a tarefa de soltarem as amarras, lavarem as mágoas e a alma, fazendo brotar as flores e colhendo os frutos semeados por aqueles que, como a própria Elis, se rebelaram contra os ataques à liberdade e tudo mais o que nos faz “humanos”. 

11- Canção da Despedida - Elba Ramalho (1983)
Única parceria dos dois Geraldos, Vandré e Azevedo, não há data certa para seu registro. Apanas sabe-se que foi composta na clandestinidade após o AI-5 (1968), quando o paradeiro de Vandré era mantido em sigilo. Elba Ramalho a gravou no álbum Coração Brasileiro, enquanto Azevedo fez sua primeira gravação em Luz do Solo em 1985, creio eu que com ares de festa e comemorações.

12- Coração de Estudante - Milton Nascimento (1983)
Com melodia de Wagner Tiso, que a compôs para o filme Jango, a canção ganhou letra de Milton anos depois e foi inspirada nas lembranças do enterro do jovem estudante Edson Luís, morto enquanto jantava com os colegas o restaurante Calabouço no Rio. Logo virou hino de esperança da juventude que lutava por mudanças e pelas eleições diretas. Imortalizou-se também com outra perda para o país, quando foi exaustivamente executada por ocasião do falecimento de Tancredo Neves em 1985, marcando musicalmente o fim da ditadura.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

MEMÓRIA MUSICAL- PARTE 1

Inspirada no relato de tantos artistas que passaram poucas e boas durante a censura imposta pela ditadura militar brasileira, e que tiveram discos embalados em sacos pretos ou faixas deletadas, organizei uma mini coletânea de canções que contam um pouco da nossa recente história. As 12 canções aqui selecionadas (parte 1 e 2) foram classificadas cronologicamente de acordo com o ano de lançamento & versão que fez mais sucesso, pois em alguns casos a canção foi gravada anteriormente até mesmo por ótimos artistas, mas teve pouca repercussão.

1- Alegria, alegria - Caetano Veloso (1967)
Marco inicial do Tropicalismo, ficou mais conhecida ao ser apresentada no III Festival da Música Popular Brasileira da Record, ficando em quarto lugar, apesar de ser uma das queridinhas daquela edição. De sonoridade suave e alegre, apesar do início ter a famigerada guitarra elétrica tocada pelos Beat Boys, essa canção é contemporânea, pop e cheia de referências à cultura de massa da época. Mesmo não tendo sido composta na intenção de contestar, e sim inspirada em A Banda de Chico Buarque, dificilmente essa canção não é associada às que marcaram o cancioneiro durante o regime militar.

2- Pra não dizer que não falei das flores - Geraldo Vandré (1968)
Mais conhecida como "Caminhando", foi apresentada apenas com voz e violão no III Festival Internacional da Canção Popular (FIC), ficando em segundo lugar mas em primeiro na boca do povo, o que incomodou demais os militares e obrigou o cantor a "sumir" de cena após o AI-5. Os discos foram retirados das lojas e sua execução pública proibida até 1976, quando por conta da anistia foi regravada por Simone. Já o compositor pôde retornar ao Brasil em 1973 após muitas negociações sigilosas com o governo, mas não mais retomou sua carreira artística.
 
3- Sabiá - Chico Buarque (1968)
Composta musicalmente como Gávea, a canção mudou de nome após Chico Buarque por letra inspirada no poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias, sendo por fim inscrita no III Festival Internacional da Canção Popular e interpretada por Cynara e Cybele (Quarteto em Cy). Tom resolveu ser participante para se livrar se ser jurado, mas não contava com a vaia histórica por causa de um primeiro lugar que nem ele mesmo botava fé. Surgiram várias teorias da conspiração para a vitória sobre a canção de Vandré, mas até hoje não se sabe por quê o júri a escolheu. Intencional ou não, o certo é que Sabiá ingenuamente era uma nova e premonitória Canção do Exílio para aqueles tempos que se tornariam mais sombrios em breve.

4- Aquele abraço - Gilberto Gil (1969)
Composta durante as tratativas com os militares que culminaria no exílio em Londres, assim o cantor declarou sobre sua ode à cidade maravilhosa e canção de despedida: "finalmente eu poderia sair do país e tinha que dizer bye-bye; sumarizar o episódio todo que estava vivendo numa catarse. Que outra coisa para um compositor fazer uma catarse senão numa canção?"

5- País tropical - Wilson Simonal (1969)
Como falei inicialmente, esta seção foi catalogada considerando a versão daquela época que fez mais sucesso. É o caso dessa canção, que nesse mesmo ano foi gravada pelo trio de baianos Caetano, Gal e Gil e em seguida pelo "internacional' Sérgio Mendes, mas foi na voz de Wilson Simonal que ela balançou o Brasil de 1970. Como relata Nelson Motta no livro 101 Canções que Tocaram o Brasil, "por sua qualidade e sinceridade, superou qualquer eventual conexão com o ufanismo autoritário e sobreviveu ao tempo como um hino e alegria e brasilidade".

6- Apesar de você - Chico Buarque (1970) 
Como já é sabido, o Departamento de Censura Federal (que em 1972 seria formalizado como DCDP -Divisão de Censura de Diversões Públicas) de vez em quando se passava na triagem e liberava uma canção cheia de diretas e indiretas ao regime militar. Foi o caso de Apesar de Você, que logo após estrondoso sucesso teve discos confiscados e execução terminantemente proibida. Só que o estrago já estava feito, pois 100 mil discos já tinham sido vendidos, a letra estava na boca do povo e a música circulava também nas cópias nas saudosas fitas cassete. Quando interrogado, Chico disse cinicamente que tinha composto o samba para uma mulher mandona e autoritária, rs.


PS: Não achei a imagem que gostaria de encontrar, mas fica abaixo um exemplo do que a turma da moral e dos bons costumes em honra da família brasileira e do bem da nação deixava passar.

                     Policial Pensador: Raul Seixas, Polícia e a Ditadura


terça-feira, 30 de junho de 2020

AS MULHERES BEM RESOLVIDAS DE CHICO BUARQUE



No livro 101 Canções que Tocaram o Brasil,  Nelson Motta cita que para "além desse conhecimento dos desvãos da alma feminina, Chico toca onde os homens mais sentem o que as mulheres lhe dizem, onde mais doem suas palavras e lembranças, onde mais os ferem seus ódios e rancores, suas mentiras e traições. Nos diversos personagens que ele criou, as mulheres se sentem representadas - os homens sofrem com as mulheres de Chico."

Inspirada nesse comentário, fiz uma breve busca e encontrei sambas e valsas com declarações e apelos, vários títulos com nome das musas, mas também as obras nas quais a protagonista mandou aquele recado estilo "o mundo dá voltas! Me aguarde!". Seguem abaixo alguns exemplos e impressões:

Olhos nos olhos - feita sob medida pra voz de Bethânia, fica difícil identificar um trecho que não seja um "olha aí que eu passo é bem sem você por perto". A melodia traz um tom reflexivo e meio cabisbaixo, ao contrário do que narra a protagonista. 

A Rita - eita, mulher cruel! Essa aí arrasou com vontade. Lembra os sambas pré-bossa nova, mas com tamanho charme e leveza que a gente canta e nem presta atenção na letra.

Folhetim - apesar de boas atrizes terem interpretado a canção na peça Ópera do Malandro, cada sílaba cabe indiscutivelmente na voz de Gal Costa. Os censores já andavam cansados e não perceberam que se tratava do relato de uma prostituta, mas poderia ser lido hoje sob a ótica da sugar daddy ou da mulher livre, leve e solta. 

O Último Blues - composta para o filme Ópera do Malandro, lembra muito Romance Ideal dos Paralamas do Sucesso. Tanto naquela, como nessa a dona da situação explora o recurso da liberdade que a idade oferece para brincar de seduzir e deixar pra lá. 

Joana Francesa - feita para o filme interpretado pela atriz francesa Jeanne Moureau, traz um lindo enredo poético consciente de sua efemeridade. Isso se confirma nos versos "songes et mensonges sei de longe, sei cor", que Nara Leão canta com seu jeito cool na minha versão favorita, capturando em definitivo o caráter buarquiano de mergulhar na alma feminina. 

domingo, 21 de junho de 2020

LABIRINTO

                                             4 dicas de autocuidado com a saúde mental
 
"Quero a sua mão no meu cabelo
Que é pra desembaraçar meu pensamento
Quero respirar o teu perfume
Que é pra descongestionar meu peito
O amor é um sentimento tão difícil de explicar
É um labirinto

Só pode a cada dia complicar
Cada dia melhorar
É um labirinto
Seu código é a frequência do olhar"
(Guilherme Arantes)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

ACHADOS DA QUARENTENA #2- ADRIANA CALCANHOTTO

Conheci as canções de Adrix em 1990 nos intervalos musicais da TV Bahia, quando passava um pedacinho do clipe de Naquela Estação. Três anos depois veio Mentiras em Renascer e somente nove anos depois eu fui morar no Rio, onde definitivamente entendi a ambientação de tantas canções, em especial Inverno. Lembro que o CD Perfil dela tocava em fluxo contínuo em tudo quanto era lugar e, aos poucos, quando sobrava um trocado da bolsa, eu ia adquirindo um ou outro exemplar da vasta obra. Não sou fã incondicional, mas gosto de saber a história por trás das canções. Assim veio o segundo achado da quarentena, com ela toda humilde se apresentando e explicando o processo de criação:

"Oi, pessoal! Olá a todxs! Eu sou Adriana Calcanhotto fabricante de canções. Tô aqui no mundo da lua. Tô aqui conversando com vocês sobre canção, os motivos das canções, a feitura das canções e como elas mudam o mundo, mudam a vida da gente."

No vídeo de Cariocas, capturei uma poesia dos comentários, que segue abaixo com a devida permissão do autor:



PARA ADRIX (Márcio Torvano)

Ela é gaúcha Ela é bonita como uma praia carioca Ela tem ideias ensolaradas Ela gosta de liberdade Ela tem um olhar diferente Ela é diferente Ela sabe o caminho da estrada Ela gosta do simples Ela enxerga pedras Ela curte gente pela calçada Ela só queria uma camiseta Ela só queria ter tempo Ela só queria fazer uma canção Ela não queria conhecer os caretas Ela ama os loucos Ela não gosta de gente normal Ela enxerga beleza em tudo Ela gosta de sotaque no plural

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

AS MAIS "MAIS"!


Saiu na Rolling Stone que o  Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), divulgou uma lista que indica quais são as dez músicas mais regravadas na história do Brasil. Não duvido que essa lista, que faz parte permanente da minha playlist, permaneça inalterada em seus cantores/compositores por longos e longos anos.

Ary Barroso – “Aquarela do Brasil” (399 gravações) 
Pixinguinha e João de Barro – “Carinhoso” (389 gravações) 
Tom Jobim e Vinícius de Moraes – “Garota de Ipanema” (376 gravações)
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira – “Asa Branca” (304 gravações)
Luiz Bonfá e Antônio Maria – “Manhã de Carnaval” (276 gravações)
Tom Jobim e Vinícius de Moraes – “Eu Sei Que Vou Te Amar” (257 gravações)
Tom Jobim – “Wave” (238 gravações)
Tom Jobim – “Corcovado” (228 gravações)
Tom Jobim e Vinícius de Moraes – “Chega de Saudade” (228 gravações)
Tom Jobim e Newton Mendonça – “Desafinado” (216 gravações)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

TONS SOBRE TOM


"Já temos problemas que nascem com a gente e temos que administrá-los. Agora, o que os outros me trazem eu não quero. Não é minha obrigação. Quero o que tenho, porque levo comigo, estou carregando, tudo bem. Mas que não venham me dar mais encargo, isso eu não quero, não quero, não admito." (Tom Jobim)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

DEIXA DILSON E VAMOS NELSON


E se imaginava, messiânico, um autor disposto a utilizar a canção como instrumento de educação popular. "Temos que dar ao público uma criação de boa qualidade, mas que seja facilmente compreendida por todos", dizia. "Não faço isso por dinheiro ou sucesso. Quero apenas comunicar uma determinada experiência a um número maior de pessoas. É uma questão de aprimoramento do gosto. Educar o povo para que ele tenha condições de exigir o melhor para si". (Gonzaguinha)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

CHEGOU O NATAL!


"Let us all remember

In our gift giving and our merriment
With our family and friends and loved ones
The real and true meaning of Christmas
The birth of our Lord and Savior, Jesus Christ"
(O Tannenbaum - Ernst Anschütz)

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

VERSÕES QUE AMO #5: THE PLATTERS

Dia desses estava na minha TV Tube e pintou sugestão do Programa Todo Seu. Pauta musical do dia: The Platters. Olha aí o pessoal de Smoked in your eyes que eu copiei da Georgia! Ronnie Von estava todo emocionado de recebê-los e eu parti logo pra busca para saber como eles existem/resistem na cena até hoje. Nessa busca achei uma versão para Chove Lá Fora de Tito Madi, um dos precursores da Bossa Nova quando ela ainda nem tinha esse nome.

A canção está registrada em Les Platters Autour du Monde, álbum de 1958, apenas um ano após ter sido lançada no Brasil. Quem assina a versão é ninguém menos que Buck Ram, autor de Only You.


Inside, outside
Inside, outside
Oh, darling let me in
It's raining outside
Please let forgive me soren
It's raining outside
Oh, let my arms return
To hold you near me
Your darling heart must learn
I love you dearly
Oh, darling please be kind
Don't leave me outside
Outside your heart am I
Oh, take me inside
The rings in my heart
And my heart cries
Our love dies
Our love dies
It's inside raining outside
Inside, outside
Inside, outside
The rings in my heart
And my heart cries
Our love dies
Our love dies
It's inside raining outside inside
Inside, outside