terça-feira, 14 de agosto de 2012

OURO DE TOLO

"Não deveríamos nos sentir constrangidos de desistir de uma pessoa por causa do seu gosto para sofás ou para canecas de cerveja". (Alain de Botton)


Um dia conheci um homem sem grandes pretensões. Lutou desde cedo, conquistou cargo maior que sua função no serviço público, tinha um cartão internacional (que foi o banco quem deu), mas nunca pensou em botar a botina fora da fronteira; estava construindo uma mansão, mas ia decorá-la com móveis das Casas Cabia ou da Insaniante. Tudo a mais um pouquinho para ele era "chique".

Noutros tempos conheci um camarada aparentemente bem resolvido com seus fracassos de ordem sentimentais e profissionais, metido a hi-tech, com uma filosofia lulusantiana (vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir) que achava que eu falava difícil. Como assim, Bial ? Ainda bem que eu pulei essa fogueira antes que eu tivesse que conversar através de mímica ou Libras.

Recentemente, ouvi uma amiga dizer: quando eu lembro dos programas de índio que fui aos domingos, eu nem me reconheço. De fato, quanta coisa a gente faz para agradar, para enturmar e enturmar-se com o outro quando esse é muito diferente de nós. No começo, tudo é conquista! Então, lá vamos nós com toda empolgação focando só no objeto de interesse, sem pensar no conjunto da obra. Se é um filme chato, vambora! Saída com a primaiada? Agora mesmo! Churrascão na casa da tia, bem estilo estranha no ninho? Já tô lá!

Tudo bem que ninguém é igual a ninguém, mas se tem uma coisa que a vida me confirmou é que os iguais são quem permanecem juntos. Tenho acompanhado nos últimos anos tantos fins de namoro que já deveriam ter ocorrido há muito tempo, ou melhor, namoros que nunca deveriam ter começado. Mas, como tem coisa que só provando e se lascando toda, vamos lá fazer o papel de amigo e levar uns band-aids para colar os cacos. É incrível como o objetivo da mulher é, mesmo insconscientemente, garimpar as qualidades, os gostos em comum, as virtudes, enquanto o dos homens é...cri-cri-cri...eles não sabem responder. Na maioria das vezes, é só ter uma namorada mesmo. Só isso, ouviram meninas ?

Por isso, eu aconselho minhas caras amigas: se estão na pindaíba e se contentam com um Zé Fulaninho, o problema é de vcs! Se estão vivendo uma relação sozinhas, sonhando que o sonhador ao lado mude a rotina entediante, pensem bem se vale a pena qualquer coisa só para ter companhia nem tão interessante assim. Saiam dessa vida de migalhas! Que adianta oferecer banquete a quem se contenta com pão e água? Repito mais uma vez a todas aquelas cujos casos eu acompanho: se não dá conta da fogueira, não acenda o primeiro fósforo. E para aquelas que ainda não tiveram coragem de dar esse passo, cito mais uma vez Anne Sullivan:

"Há sempre uma saída para as situações difíceis, quando realmente queremos resolvê-las".

domingo, 12 de agosto de 2012

DIA DE PAINHO

"Se todas as pessoas soubessem o que lhes convêm e agissem de acordo, este mundo seria muito diferente, embora não tão interessante. Mas não sabemos o que é bom para nós e eu estou passando meus dias tentando descobri-lo. A experiência é divertida e às vezes dispendiosa, mas não há outro modo de se obter conhecimentos..."



Eu poderia fazer (e farei) vários posts com essa frase, que é o trecho da carta de Anne Sullivan a Hellen Keller por ocasião de uma de suas raras viagens sem sua pupila. Essa frase e essas fotos hoje retratam meu pai, homem doce e rude, aventureiro, sonhador, engenhoso, curioso e tio, padrinho e avô postiço de uma grande parte de primos de primeiro e segundo graus. Quando se zanga vira uma fera, mas quando é carinhoso sai de baixo. Fala o que pensa e ai de quem se incomodar que ele reafirma e não pede desculpas! Quando quer carinho, se enrosca que nem gato, vai se aninhando até conseguir! Não suporta fazer nada sozinho, reclama atenção, detesta sentar-se só à mesa e adora fazer um social (dava para se político!). Tem muuuuuuuuuitos contatos, tantos que as pessoas muitas vezes o reconhece através das feições dos filhos. Já pensamos em dar um celular a ele, mas a agenda e os créditos não dariam conta!

Ao mesmo tempo que está ficando com uns lundus da idade, não deixa de admirar a natureza, de ouvir música, fazer a gente assistir Chaplin ou Zé Lezinho e rir e repetir as cenas e as piadas. Sempre aconselhou que o que a gente escolhesse para nossa vida, se desse errado, seria primeiramente pior para a gente e depois para ele e minha mãe. Nos educou para respeitar incondicionalmente os mais velhos e se abastece de brincadeiras, que inventa ou repete pacientemente com Farturinha ou com esses príncipezinhos da fotografia. É bom vizinho e para tudo para ajudar qualquer pessoas. Não tem detector muito bom de falsidade, e por isso já teve alguns aborrecimentos. Se preocupa principalmente com a felicidade dos filhos e consegue ver claramente se a gente está bem ou não e vai com delicadeza tentado ajudar. Ele é uma companhia para toda a vida (minha mãe que o dia nesses 35 anos de casados) e eu desejo que se cumpra a palavra do Senhor que diz:

"Honra teu pai e tua mãe,
para que teus dias se prolonguem
sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus". (Êxodo 20,12)

domingo, 5 de agosto de 2012

AMAR NÃO ACABA


"Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua". (Chico Buarque)

Essa frase brilhante de "Quem te viu, quem te vê" retrata a realidade do fim dos relacionamentos, difícil de aceitar, por mais amarga que seja. A festa continua, a vida continua, as contas para pagar também! Mas, a melodia das músicas mais saudosas sempre sugere que amaremos para sempre, teremos terno carinho e compaixão daquele que nos deixou por outra, porque não estava tão a fim da gente, ou até mesmo por outro (tempos modernos, infelizmente!).

Clarice Lispector escreveu algo sábio, em meio aos pensamentos cuja compreensão só os críticos da análise morfo-sintática ou coisa mais coeso-literária podem decifrar:

"Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera".

De fato, amar não acaba! Podemos amar nosso bichinho de estimação, os amigos, nossos pais e estarmos abertos a novas experiências de amor, mas não ficar na de Whitney: "and I will always love you, ohhhh, I will always love you". É lógico, claro e evidente que o amar certa pessoa acaba, mesmo para as mulheres do movimento "mulheres que amam demais". O que muita gente acha que é love forever, na verdade é pena de si mesmo, medo de ficar só, apego, obssessão, loucura ou fixação. A mente e a carne já se acostumaram às sensações que aquele relacionamento causavam e promover novas conexões neurais dá trabalho, e como dá! Ter que aceitar que o lance acabou, jogar fora as cartas, exorcisar a mente e lançar fora as lembranças mais doces é difícil, mas não é impossível. Ter que entender que a pessoa não vai ligar, que os sábados à noite serão intermináveis, que se arrumar pra si mesma é imprescindível, a não ser que você queira ser o espantalho do Mágico de Oz, é preciso. Controlar-se para não ficar fuçando as redes sociais e ficar seguindo a novela da vida alheia do ex, evitar inserir o assunto recorrente nas conversas, evitar contato com a ex-futura sogra é mais que preciso, é quase uma lei, uma cláusula do contrato que se não cumprida é passível de punição.

Aproveitando as olimpíadas, a gente devia mesmo era se espelhar nos atletas, que treinam, investem, se dedicam, mas quando perdem voltam para casa e partem para a próxima competição. Nesses tempos de correria, onde a falta de propósitos e fidelidade tem encerrado os relacionamentos precocemente, vigiar o nosso amor próprio é mais que um dever, uma obrigação.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

SENTIMENTAL

Se a ocasião faz o ladrão, a necessidade faz a relação. De amizade em amizade, adquiri tamanha cultura jamais imaginada e pude externar meus gostos (quase sempre bom, diga-se de passagem!rs), minhas ideias e contemplar a arte de várias maneiras. Entre os vários shows, ballet, recitais, corais e concertos, pude assistir à Ópera do Malando no Carlos Gomes com minha amiga Jaqueline. Inesquecível! Fantástico! Explêndido! Não são esses alguns dos adjetivos que empregam os críticos aos filmes hollywoodianos? Pois que sejamos justos e o apliquemos também à obra de valor inestimável de Chico Buarque, este homem de olhos azuis e alma feminina, que escreve e canta com aquela voz anasalada, e empresta seus versos para tantas divas da MPB interpretarem e imortalizarem seu legado. A propósito, quem duvida que Terezinha foi feita para a dramática Bethânia, que Folhetim foi feita para os agudos de Gal ou que Sentimental foi tecida para vibrar nas cordas vocais de Zizi?

Sentimental, sentimental
Um coração saliente
Bate e bate muito mais que sente
Fica doente
Mas é natural, natural
Que num cochilo de agosto
Surja um outro alguém do sexo oposto
Do sexo oposto, outro alguém


Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúme
Hoje eu contei as estrelas
E a vida parece um filme


Gemini, gemini, geminiano
Este ano vai ser o seu ano
Ou senão, o destino não quis
Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz


Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz
Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente, eu não fui feliz
Tenho dezesseis anos
Sou morena clara
Atraente
E sentimental
Sentimental, sentimental

quinta-feira, 26 de julho de 2012

TEMPO DE LEITURA

"Ler é uma das poucas formas de solidão socialmente aceitas por um mundo que tende a suspeitar das atividades em singular" (Rodrigo Fresán)

Sou cliente do Yahoo Mail desde que me conheço por internauta e, apesar das reportagens abobrinha e fofocas mal elaboradas das celebridades, do sistema de busca se perder até dentro do seu próprio site, de vezzzzzz em quando eu encontro alguma coluna que merece minha leitura. Com muito custo, descobri no canto direito lá no finzinho da página, o link dos Blogs dos Colunistas que realmente escrevem coisas interessantes. Merecem destaque as colunas Coisas do Cortez, Zoropa e Vi na Internet, de onde extraí a notícia não tão recente, mas não menos interessante. Trata-se de "O livro que não pode esperar" que precisa ser lido em até 60 dias, uma vez iniciada a sua leitura, senão as letras desaparecem. Interessante a ideia e o objetivo da campanha de uma editora argentina, mas para quem lê à prestação, vai ficar no vermelho, ou melhor, no branco, literalmente!

Enquanto escrevia esse post e vasculhava onde o Yahoo recolocou os Blogs, achei essa aqui saída do forno. "Cheiro de livro novo é um aroma marcante. Muita gente, ao  comprar um livro novo, abre as páginas e sente o cheiro do papel e da tinta daquelas páginas recém-saídas da livraria. Batizado de Paper Passion, o perfume é o presente ideal para aquele seu amigo que gosta de livros." Quem sabe os sebos não usam esse produto como Bom Ar!

sábado, 14 de julho de 2012

DEIXA CHOVER

Enquanto os galos da vizinha erram o horário de cantar e me despertam na hora em que me recolho, aproveito o inverno, essa estação deliciosa de hibernações a qualquer hora, sopas e leite caramelado para descansar meu coração e limpá-lo das desventuras e aborrecimentos inevitáveis que às vezes me assaltam.

Arrumei os livros na estante e continuo com a mania de ler mais de um ao mesmo tempo sobre os mais variados temas, sendo os mais recorrentes ciência e espiritualidade. Joguei muita coisa fora, coloquei muita coisa no lugar, achei coisas que nem lembrava mais que eu tinha e, para não balançar demais o coração na faxina de fim de verão (considerando que em Paulo Afonso o inverno só acena uns chuviscos e o termômetro só despenca à noite), a realizei por etapas. Entre um espirro e outro recusei ou atendi telefonemas, criei a lista de leitura e de AV (a ver) dos livros e filmes no nicho da espera. Limpei as gavetas, que ficaram bem mais leves, e não só contribui com os catadores de papel, como também segui a linha da leitura sustentável doando as palavras que já me fizeram bem, ou roupas que podem vestir os que precisam. No meio desse desacato à ordem, um dos ganhos das leituras foi a Revista Vida Simples, onde achei um artigo que falava o seguinte:

"Passamos a maioria do tempo nos esforçando para correr ao lado do rio da vida, segurando complexas análises de suas águas. Ora, qual o melhor modo de igualar nossa velocidade à do rio? Pular.

Para desembaraçar um fio, você pode puxá-lo e remover nó a nó. Ou pode afrouxar, balançar, deixá-lo cair e se surpreender quando perceber que ele não estava emaranhado de fato. Nossos ancestrais taoístas já ensinavam a não-ação: faça menos para que as coisas possam se fazer. 
Melhor que fazer nossa ondinha numa piscina de plástico, nossa revolução pessoal talvez seja esperar por grandes ondas. Dar um passo e deixar o céu se mover. Travar diálogo com o que nos rodeia." (Gustavo Gitti)
Lembrei da cadeira de balanço de minha avó Marina, que ía e vinha à tarde com ela a cumprimentar quem passava e a nos vigiar nas brincadeiras das férias. Quando ela saía da cadeira eu sempre dava um jeito de sultilmente tomar posse antes que um dos meus primos a vissem vazia, e como era mágico os instantes que ali passava com a brisa a beijar o rosto. Hoje, com a correria do mundo fast, as pessoas pagam psicólogos para tratarem suas agruras, pacotes de viagem para relaxar em praias e se preenchem de todo jeito quando deveriam se esvaziar. Diz o Evangelho (apócrifo) de Tomaso:
"Se você expressar o que está dentro de você
o que você expressar irá salvá-lo.
Se você não expressar o que está dentro de você
o que você não expressar irá destruí-lo"
Por enquanto, enquanto em vários lugares do mundo as pessoas aproveitam o verão, aqui estou aproveitando ao máximo o inverno e essa calmaria para refletir, acalmar as tsunamis. Quando vem a chuva e a vejo caindo, deixo que ela leve e lave também o que não quero mais dentro de mim, e do jeito que adoro essas manifestações da natureza, quanto mais rajadas de vento melhor. Gosto ainda de sentir o calor do sol que tira a umidade no meio da tarde, do céu límpido repentino (olha lá! o sol abriu!) e das nuvens lilazes ou roxas (painho, como é que a gente sabe que vai chover?). E assim sei que essa estação assim sentida dará muitos frutos, a seu tempo, na primavera ou no outono, e quiçá no próximo inverno, pois como diz a melodia de João Bosco: "até que tudo revolva por si novas canções vão surgir". 
  

segunda-feira, 9 de julho de 2012

LUZ NAS VIELAS















Tistu tentava florir o mundo, Gentileza deixou um legado, os Gêmeos transformaram um castelo de pedras cinzas numa visão psicodélica no meio da Floresta e o Grupo Boa Mistura pintou de palavras e tintas as paredes de alguns pontos de Vila Brasilândia, uma das maiores favelas de São Paulo. Através de cores fortes e de palavras como amor, doçura, firmeza, orgulho e beleza eles procuraram dar um quê de esperança aos 300 mil moradores que ali residem.


Eles aproveitaram os altos e baixos da topografia irregular inerente a esses lugares, a participação dos moradores e lá deixaram impressas essas palavras traduzindo um pouco do que de bom existe em cada um de nós, dando ao caos de construções feitas com o suor de trabalhores e faxineiras e sonhadores um tom de poesia ao concreto do dia.