quinta-feira, 9 de junho de 2016

CLARICE LISPECTOR PARA JUNHO


De tanto ler autorias improváveis para frases e pensamentos de autores famosos da literatura brasileira, fiz um trabalho de colheita no livro "As Palavras" de Roberto Corrêa dos Santos e deixo aqui uma pequena amostra do tema "amor/relacionamento/paixão", que só perde para o tema "autoajuda", que é o mais citado erroneamente. Segundo o curador/pesquisador "para estar na terra mental de Clarice, impõe-se a inquietude, o atentar para avisos e sutilezas, e a grande paixão pelo viver, pelo pensar, pelo sentir". Assim, peço aos leitores deste post que façam a devida referência ao citar os frutos aqui colhidos.
 

A um certo modo de olhar, a um jeito de dar as mãos, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor.

Amor é quando é concedido participar um pouco mais.

Amor é a desilusão do que se pensava que era amor.

Eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando duas compreensões, eu amava. Não sabia que, somando duas incompreensões, é que se ama.

Me abrace, que no abraço mais do que em palavras, as pessoas se gostam.

Nos braços de alguém eu morro toda.
 
Eu te amo como sempre estivesse te dizendo adeus.

Estou sofrendo de amor feliz. Só aparentemente é que isso é contraditório.

Não quero mais me expressar por palavras: quero por "beijo-te".

Quando eu digo te amo, estou me amando em você.

Amor demais prejudica os trabalhos.

Para te escrever eu antes me perfumo toda.

O que estraga a felicidade é o medo.

Eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação.

Um dia dissestes que me amavas. Finjo acreditar e vivo, de ontem para hoje, em amor alegre.

Como fazer se não te enterneces com meus defeitos, enquanto eu amei os teus.

Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.

Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.

"Eu te amo" era uma farpa era uma farpa que não podia se tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.

Apesar de, se deve amar.

Ele era um homem, ela era uma mulher, e milagre mais extraordinário do que esse só se comparava à estrela cadente que atravessa quase imaginariamente o céu negro e deixa como rastro o vivido espanto de um Universo vivo.

Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.

Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.

Pode-se aprender tudo, inclusive a amar.

Não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar.

Não sabia que nome dar ao que a tomara ou ao que, com voracidade, estava tomando senão o de paixão.

Quero o que você é, e você quer o que eu sou.

Queria que você, sem uma palavra, apenas viesse.

Eu sou tua e tu és meu, e nós é um.

Eu está apaixonada pelo teu eu. Então nós é.

Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.

Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.

Se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.

Não quero te dar o susto do meu amor.

Chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas eu agora: por amor.

Ah, meu amor, não tenha medo da carência: ela é o nosso destino maior.

O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente.

O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

A graça da paixão é curta.

Depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?


Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber isso.

O sentimento mais rápido, que chega a ser apenas um fulgor, é o instante em que um homem e uma mulher sentem um no outro a promessa de um grande amor.

Sentimentos são água de um instante.





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